No nosso primeiro artigo, explorámos as bases da Terapia Comportamental Dialética (DBT) e compreendemos como a interação entre uma biologia altamente sensível e um ambiente invalidante pode gerar um sofrimento emocional avassalador. Vimos também que a DBT propõe um caminho de salvação ancorado na aceitação e na mudança. Mas como é que começamos, na prática, a mudar? Como é que paramos a espiral de pensamentos catastróficos e as ações impulsivas quando a tempestade emocional se abate sobre nós?

A resposta de Marsha Linehan, a criadora da DBT, é categórica: tudo começa com o Mindfulness.

Na estrutura do Treino de Habilidades em DBT, o Mindfulness (frequentemente traduzido como Atenção Plena) não é apenas mais um módulo; é o alicerce absoluto. É a habilidade central que sustenta todas as outras. Sem a capacidade de observar o que está a acontecer dentro e fora de si no momento presente, é impossível regular uma emoção, tolerar uma crise ou comunicar de forma eficaz. Se não está consciente do seu próprio comportamento, o comportamento controla-o a si.

Neste artigo, vamos desmistificar o conceito de mindfulness, retirá-lo do reino místico ou esotérico e colocá-lo no centro da sua caixa de ferramentas de sobrevivência psicológica. Vamos explorar os três estados da mente e aprender as seis habilidades práticas (as habilidades “O Quê” e “Como”) que lhe permitirão despertar a sua verdadeira sabedoria interior.

Desmistificar o Mindfulness na DBT

Quando ouvem a palavra “mindfulness”, muitas pessoas imaginam monges budistas a meditar no topo de uma montanha durante horas, com as mentes completamente vazias e em estado de transe. Para quem sofre de desregulação emocional e tem uma mente a mil à hora, esta imagem não é apenas inalcançável; é profundamente frustrante.

A DBT aborda o mindfulness de forma laica, pragmática e comportamental. Aqui, o objetivo não é esvaziar a mente — até porque o cérebro humano foi programado para pensar. O objetivo é ganhar controlo sobre a sua atenção. Mindfulness é o ato intencional de focar a sua mente no momento presente, prestando atenção à realidade tal como ela é, sem a tentar alterar, ignorar, ou julgar.

Pense no mindfulness como a capacidade de sair do “piloto automático”. Quantas vezes conduziu do trabalho para casa e, ao chegar, percebeu que não se lembra de absolutamente nada do trajeto? O seu corpo estava lá, mas a sua mente estava a reviver uma discussão do dia anterior ou a antecipar problemas futuros. O sofrimento humano reside quase sempre no passado (sob a forma de depressão, culpa ou trauma) ou no futuro (sob a forma de ansiedade e preocupação). O presente, por mais doloroso que seja, é o único lugar onde a vida acontece e onde temos o poder real de agir.

A Bússola Interna: Os Três Estados da Mente

Para ensinar as pessoas a usar o mindfulness como ferramenta de navegação na vida, a DBT divide a experiência psicológica em três estados mentais distintos. Reconhecer em qual destes estados se encontra é o primeiro passo para a recuperação.

1. A Mente Racional (Reasonable Mind)

A Mente Racional é fria, lógica, analítica e pragmática. Quando está neste estado, você é governado por factos, estatísticas e planeamento. É a mente que usamos para resolver um problema matemático, planear o orçamento familiar, seguir a receita de um bolo ou construir uma ponte. A Mente Racional é incrivelmente útil para as tarefas diárias, mas tem um lado negro: ela ignora completamente os valores, os sentimentos e a empatia. Uma vida vivida puramente na Mente Racional seria fria, robótica e vazia de significado. Além disso, quando uma pessoa tenta usar apenas a lógica para resolver uma dor emocional profunda (sua ou de outra pessoa), o resultado costuma ser catastrófico e altamente invalidante.

2. A Mente Emocional (Emotion Mind)

No extremo oposto, temos a Mente Emocional. Este estado é quente, reativo e totalmente governado pelos sentimentos e impulsos. Na Mente Emocional, os factos não importam; o que importa é a “verdade” dita pela emoção daquele instante. A razão e a lógica são atiradas pela janela. A Mente Emocional não é inerentemente má. É a fonte da paixão, do amor romântico, da criatividade profunda, da compaixão e da coragem para lutar contra injustiças. No entanto, quando as emoções são negativas e intensas (raiva, terror, vergonha), e a pessoa fica refém deste estado, o desastre instala-se. É a Mente Emocional que dita ações impulsivas, como gritar com alguém que amamos, gastar dinheiro que não temos, ou recorrer a vícios para anestesiar a dor. A percepção da realidade fica distorcida através das lentes do humor.

3. A Mente Sábia (Wise Mind)

A genialidade da dialética ressurge aqui. A Mente Sábia é a síntese, a interseção exata entre a Mente Racional e a Mente Emocional. Não se trata de uma cedência, mas de uma integração superior de ambas. A Mente Sábia honra e compreende o poder das emoções (aceita a mensagem que elas trazem), mas simultaneamente observa os factos e usa o pensamento lógico. É aquele sentimento de “saber no íntimo” que algo é verdadeiro e que uma determinada ação é a correta a tomar. É uma intuição profunda e serena. Pode não estar feliz com uma situação, pode até sentir tristeza ou dor, mas, na Mente Sábia, você tem a clareza de que está a agir de acordo com os seus valores a longo prazo, e não de acordo com um impulso fugaz. O objetivo central do mindfulness na DBT é treinar o cérebro para conseguir aceder à Mente Sábia a qualquer momento, mesmo no meio de uma crise.

As Habilidades “O Quê”: O que fazemos quando praticamos Mindfulness?

A DBT desdobra o mindfulness num conjunto prático de passos. Marsha Linehan dividiu-os entre o que fazemos (Habilidades “O Quê”) e como o fazemos (Habilidades “Como”). É impossível fazer as três habilidades “O Quê” ao mesmo tempo; tem de escolher uma de cada vez.

1. Observar

Observar significa prestar atenção de forma crua, sem adicionar palavras. É como ser um recetor limpo das informações que entram pelos seus cinco sentidos. Sentir o vento na pele, ouvir o som distante de um motor, reparar no peso do corpo na cadeira, ou simplesmente notar uma emoção (como um aperto no peito) a nascer, atingir o pico e desaparecer, como uma onda no mar. O segredo de observar é não afastar aquilo que é desagradável e não se agarrar ao que é agradável. Marsha Linehan chama a isto ter uma “mente de teflon” (antiaderente). Os pensamentos e sensações surgem e escorregam, sem que você se apegue a eles. Você não é a sua emoção; você é o recipiente onde a emoção acontece.

2. Descrever

Descrever é dar o próximo passo: colocar palavras naquilo que observou, mas atendo-se apenas aos factos não-julgadores. É a diferença entre dizer “Eu sou inútil e o meu chefe odeia-me” e dizer “O meu coração está a bater depressa, a minha mente produziu o pensamento de que não sou bom o suficiente, e o meu chefe apontou dois erros no meu relatório.” Ao descrever, você descola o seu sentido de identidade do seu pensamento. Um pensamento é apenas um evento neuroquímico na mente, não é um facto inquestionável sobre o mundo. Descrever os eventos externos e as emoções internas reduz instantaneamente o seu poder destrutivo e impede-o de cair na armadilha da Mente Emocional.

3. Participar

A terceira habilidade é o culminar do estado de presença. Participar significa entregar-se inteiramente à atividade do momento presente, perdendo a autoconsciência ansiosa. Sabe quando está tão envolvido a dançar, a pintar, a jogar um desporto ou a ter uma conversa fascinante que perde a noção do tempo e de si mesmo? Isso é participar. Na dor mental extrema, as pessoas separam-se frequentemente do momento presente, isolando-se dentro dos seus próprios pensamentos ruminantes. A DBT ensina-nos a “mergulhar de cabeça”. Se está a lavar a loiça, não lave a loiça a pensar na discussão que terá amanhã; sinta a temperatura da água, o cheiro do detergente, a textura dos pratos. Torne-se um com a ação.

As Habilidades “Como”: O espírito da prática

Se as habilidades “O Quê” são os instrumentos, as habilidades “Como” são as instruções sobre a forma de os tocar. Estas três qualidades devem ser aplicadas sempre que estiver a Observar, Descrever ou Participar.

1. De forma Não-Julgadora (Non-judgmentally)

Esta é, talvez, a habilidade mais desafiante e transformadora de toda a DBT. Os seres humanos são máquinas de julgamento. Constantemente avaliamos o mundo em caixas de “bom ou mau”, “certo ou errado”, “justo ou injusto”, “bonito ou feio”. Embora julgar seja natural, a avaliação moral constante (“Esta chuva é péssima”, “Eu sou terrível por estar triste”, “Ele é um monstro por me ter deixado”) alimenta diretamente a chama da desregulação emocional. Julgar agrava a raiva e intensifica a depressão. Ser não-julgador não significa aprovar tudo. Se alguém lhe rouba o carro, não tem de achar isso “bom”. Mas, em vez de se perder na espiral emocional do “O mundo é horrível e as pessoas são um lixo”, foca-se nas consequências em termos de factos: “O meu carro foi roubado. Isso é um grande contratempo. Vou ter de chamar a polícia e acionar o seguro.” O truque é desapegar-se do julgamento de valor e focar-se nas propriedades tangíveis. Quando notar que está a julgar (e vai acontecer!), não se julgue por estar a julgar. Simplesmente observe o julgamento e deixe-o ir.

2. Uma Coisa de Cada Vez (One-mindfully)

Vivemos na era da distração e da valorização do multitasking (fazer várias coisas ao mesmo tempo). A DBT alerta que fazer várias coisas ao mesmo tempo é, na verdade, fazer tudo mal e estar perpetuamente ansioso. A mente divide-se e perde o ancoramento. Fazer “uma coisa de cada vez” é manter a atenção indivisa no momento. Se está a caminhar, apenas caminhe. Se está a comer, apenas coma, sem estar a olhar para o ecrã do telemóvel ou a ouvir televisão. Quando estiver a focar-se no presente e a sua mente divagar (e ela vai divagar, mil vezes se for preciso), o seu único trabalho é notar essa distração e trazê-la de volta para a tarefa atual, com gentileza, mas com firmeza, como se estivesse a treinar um pequeno cachorrinho a sentar-se. O treino de foco fortalece o “músculo mental” da regulação emocional.

3. Ser Efetivo (Effectively)

Esta é a joia do pragmatismo da DBT. Ser efetivo significa focar-se unicamente no que funciona, mantendo o foco nos seus objetivos primários na situação, e abandonando a obsessão em provar que se “tem razão” ou que uma situação “é injusta”. Muitas vezes, a necessidade egóica de ter razão destrói relacionamentos e agrava crises. A Mente Emocional grita: “Eu tenho razão, é injusto eu ter de pedir desculpa!”. A Mente Sábia, focada em ser efetiva, questiona: “O meu objetivo é provar que tenho razão e perder o meu emprego/o meu casamento, ou o meu objetivo é resolver o problema em paz?” Ser efetivo é jogar de acordo com as regras da realidade como elas são, e não como nós gostaríamos que fossem. É deixar de lutar contra a corrente de um rio apenas para provar um ponto, e começar a nadar inteligentemente em direção à margem.

A Prática é o Caminho

Despertar a Mente Sábia através do Mindfulness não acontece do dia para a noite. É uma reconfiguração profunda do sistema nervoso e dos hábitos de pensamento de uma vida inteira. Exige aquilo a que Marsha Linehan chama de “prática repetida”. Assim como ninguém aprende a tocar piano apenas por ler um livro sobre música, ninguém desenvolve o mindfulness sem a prática constante de observar, descrever e participar, adotando uma postura não-julgadora, uma coisa de cada vez, e efetiva.

Ao dominar este ancoramento no presente, o indivíduo cria um espaço valioso entre o estímulo (a situação que causa dor) e a sua resposta (a reação impulsiva). É dentro desse milissegundo de silêncio, nesse espaço conquistado pela mente alerta, que reside a verdadeira liberdade de escolha.

Com esta fundação consolidada, o terreno está preparado. No próximo artigo do nosso silo, vamos entrar num dos módulos mais vitais para quem sente demais: a Regulação Emocional. Vamos aprender a mapear as nossas emoções e, mais importante, a utilizar estratégias ativas para alterar os sentimentos que não servem os nossos objetivos e que perpetuam o nosso sofrimento.


Referências Bibliográficas

  • Linehan, M. M. (2018). Treinamento de habilidades em DBT: manual de terapia comportamental dialética para o paciente (2. ed.). (D. Bueno, Trad.; V. G. Dornelles, Rev. Téc.). Porto Alegre: Artmed.

  • Linehan, M. M. (2018). Treinamento de habilidades em DBT: manual de terapia comportamental dialética para o terapeuta. Porto Alegre: Artmed.

  • Linehan, M. M. (1993). Cognitive-Behavioral Treatment of Borderline Personality Disorder. New York: Guilford Press.

  • Kabat-Zinn, J. (1994). Wherever You Go, There You Are: Mindfulness Meditation in Everyday Life. Hyperion.


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